Servos do Algoritmo, Do Feudo à Nuvem: Tecnofeudalismo e o Controle na Sociedade de Dados
Defender a dignidade humana na era digital significa defender o direito à opacidade, à privacidade e à desconexão. São espaços de liberdade em que o humano possa existir fora do controle algorítmico. Precisamos nos preparar para entender e nos defender do tecnofeudalismo.
VIDA DIGITAL
Andre Maia
10/27/20256 min ler
A consolidação de uma nova economia global e digital nas últimas décadas transformou profundamente as relações sociais, econômicas e políticas. A ascensão das grandes corporações de tecnologia, como Apple, Google, Meta, Microsoft, Amazon, X (antigo Twitter) e TikTok, deu origem a um novo regime de acumulação baseado no controle da informação e dos dados. Esse fenômeno deu origem ao que Shoshana Zuboff denominou de capitalismo de vigilância, e outros pensadores, como Yanis Varoufakis e Evgeny Morozov, chamam de tecnofeudalismo.
O termo tecnofeudalismo indica uma estrutura de dominação social em que o poder econômico e simbólico advém das plataformas digitais que atuam de modo semelhante aos antigos senhores feudais: elas não apenas controlam as “terras” virtuais, como também exploram o trabalho alheio e limitam o acesso livre e de qualidade à informação. A “terra” hoje é o espaço digital e os “servos” são os usuários, trabalhadores cujas atividades geram valor, mas que não têm acesso e controle sobre como esse valor é distribuído.
Diante dessa situação, o texto surgiu como uma reflexão sobre como o tecnofeudalismo está reorganizando a riqueza, o trabalho e o poder nas redes digitais, bem como sobre as consequências éticas, sociais e políticas dessa nova ordem. A precarização das condições de trabalho mediado pelos aplicativos e algoritmos também é um problema identificado, junto aos impactos da digitalização sobre o ser humano.
O tecnofeudalismo é, em essência, a extração, o processamento e a monetização de dados pessoais e comportamentais. Zuboff afirma que as plataformas digitais transformaram a experiência humana em matéria-prima gratuita para a vigilância, a previsão e a manipulação de comportamentos. Assim, o valor econômico não é gerado apenas pela produção material, mas também pela captura, análise e previsibilidade do comportamento humano.
Essa lógica resulta em uma concentração de poder inédita. As big techs passaram a controlar as infraestruturas de comunicação, comércio e informação do planeta, tornando-se entidades quase soberanas. Elas detêm a capacidade de influenciar eleições, moldar hábitos de consumo e manipular as emoções em escala global. Para Varoufakis, trata-se de uma nova aristocracia digital, cujos domínios não são geográficos, mas informacionais.
Essa estrutura de poder refaz o mapa da desigualdade social. A riqueza concentra-se em corporações que monopolizaram o acesso aos dados e aos algoritmos, enquanto a maioria da população permanece dependente desses sistemas para trabalhar, se comunicar e existir socialmente. A promessa inicial da internet que era a descentralização e democratização da informação se transformou em uma uma nova forma de servidão digital.
O trabalho mediado pelos aplicativos representa uma das faces mais visíveis do tecnofeudalismo. Empresas como Uber, iFood e Rappi exemplificam a lógica da externalização de riscos e da desproteção social. Sob o discurso da autonomia e do empreendedorismo, o trabalhador do século XXI é submetido a uma forma de controle algorítmico, no qual define as rotas, os tempos e os ganhos, conforme destacam Antonio Casilli e Nick Srnicek .
As plataformas transferiram aos trabalhadores os custos e as responsabilidades antes assumidos pelo empregador, eliminando os direitos trabalhistas conquistados historicamente. A ausência de vínculos formais e de proteção social, somada à pressão por produtividade e a disponibilidade constante, configura uma precarização das condições de trabalho em escala global.
O controle exercido pelos algoritmos é impessoal, invisível e totalizante. O trabalhador não negocia com uma pessoa mas com um sistema automatizado que o avalia e o ranqueia permanentemente. Essa nova dinâmica no ambiente de trabalho, gera o que Byung-Chul Han chama de autoexploração: o indivíduo acredita estar exercendo a liberdade e a autonomia, quando na verdade, reproduz as imposições do sistema.
Além do impacto econômico, há um impacto psíquico e existencial. A lógica da performance e da avaliação constante corrói o tempo livre, a autoestima e o senso de comunidade, se tornando uma cultura da exaustão e do isolamento. O trabalho deixa de ser apenas um meio de subsistência e passa a colonizar todas as dimensões da vida.
O tecnofeudalismo não opera apenas sobre as estruturas econômicas mas também sobre a subjetividade. As redes digitais transformaram o modo como percebemos o corpo, o tempo e a identidade. O ser humano contemporâneo vive em um estado de hiperconectividade, no qual o corpo físico se integra às interfaces digitais e o “eu” é constantemente mediado pelos algoritmos.
Byung-Chul Han descreveu essa condição como a “sociedade da transparência”. Um mundo em que tudo é exposto, quantificado e compartilhado. A privacidade e o corpo são rastreados por sensores; transformados em dados comportamentais e os bits estão se tornando a substância da existência social. Essa hiperexposição está eliminando o espaço da intimidade e da alteridade, convertendo o sujeito em dados e os dados em mercadoria.
As plataformas, ao manipular os desejos e as emoções, colonizam a experiência humana. O que antes era espontâneo e singular como o olhar, o afeto e o silêncio, torna-se previsível e mensurável. Assim, a subjetividade é reconfigurada segundo os parâmetros do mercado de dados: o valor de um indivíduo passa a depender de sua visibilidade algorítmica.
As transformações provocadas pelo tecnofeudalismo configuram uma nova questão social, que ultrapassa as fronteiras do trabalho e atinge o próprio conceito de cidadania. Se o século XIX foi marcado pela luta contra a exploração industrial e o XX pela conquista dos direitos sociais, o século XXI enfrenta o desafio de garantir a justiça e dignidade na era dos algoritmos.
A regulamentação das plataformas e das redes sociais é um imperativo ético e político. É necessário garantir transparência algorítmica, limitar o poder das corporações sobre os dados pessoais e criar mecanismos de redistribuição dos lucros digitais. Políticas públicas de proteção de dados, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) no Brasil e o GDPRna União Europeia, representam avanços importantes, mas ainda são insuficientes diante da velocidade das transformações tecnológicas imposta pelas grandes corporações.
Como observa Evgeny Morozov, o desafio não é rejeitar a tecnologia, mas “repolitizá-la”, ou seja, submeter o desenvolvimento e uso a critérios democráticos e humanos.
O atual momento nos obriga a repensar o próprio sentido do humano. Em um mundo em que decisões são automatizadas e o valor se mede pelos dados, torna-se urgente recuperar as dimensões que escapem à quantificação: o afeto, o cuidado, a incerteza e também o erro.
A potência criadora da humanidade sempre existiu mas o risco atual é que ela se converta em uma forma de dominação sobre o próprio homem. O desafio consiste em recolocar a tecnologia a serviço da vida e não o contrário.
Defender a dignidade humana na era digital significa defender o direito à opacidade, à privacidade e à desconexão. São espaços de liberdade em que o humano possa existir fora do controle algorítmico. Trata-se de reencontrar o equilíbrio entre o virtual e o real, digital e analógico.
O tecnofeudalismo representa a expressão mais recente e complexa das dinâmicas de dominação. Ao transformar os dados em fonte de lucro, ele reconstrói as relações de poder e redefine o lugar do ser humano no sistema produtivo. A precarização das condições de trabalho, a concentração informacional e a colonização da subjetividade configuram um quadro de servidão digital que exige conscientização e respostas urgentes.
Superar esse modelo requer a regulamentação, inovação democrática e consciência ética. O progresso tecnológico deve servir à humanidade e a luta por dignidade na era dos algoritmos é uma luta pela preservação do humano diante das máquinas de poder invisíveis que governam o presente.
Referências Bibliográficas
CASILLI, Antonio. En attendant les robots: Enquête sur le travail du clic. Paris: Seuil, 2019.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
HAN, Byung-Chul. Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2015.
MOROZOV, Evgeny. O Complexo da Tecnologia: Repensando o Futuro Digital. Lisboa: Edições 70, 2022.
SRNICEK, Nick. Platform Capitalism. Cambridge: Polity Press, 2017.
VAROUFAKIS, Yanis. Technofeudalism: What Killed Capitalism. London: Bodley Head, 2023.
ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism. New York: PublicAffairs, 2019.
